Panorama de Mercado - Janeiro 2024

André Falcão, CGA
Economista
10/1/2024

Neste mês, o panorama de mercado inclui os seguintes tópicos:

A “corda bamba” do FED 

O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, está considerando o início de uma redução no aperto quantitativo (QT - Quantitative Tightening), uma medida crucial para normalizar sua política monetária. Mas o que exatamente isso significa e quais são os riscos associados?

O aperto quantitativo foi uma estratégia adotada pelo Fed após a crise financeira de 2008. Envolve a compra massiva de títulos do governo e outros ativos para injetar liquidez na economia e reduzir os juros de longo prazo. Agora, o Fed pretende começar a reduzir o tamanho de seu balanço patrimonial, revertendo parte desse estímulo.

Entretanto, essa transição não é isenta de riscos. Reduzir o balanço patrimonial pode afetar os mercados financeiros, especialmente o mercado de recompra de overnight. O desafio é encontrar o equilíbrio certo: diminuir o estímulo sem causar disfunções significativas nos mercados, como aconteceu em 2019 quando tentaram suspender o QT.

Por outro lado, os dados de emprego nos EUA mostram uma economia ainda forte, o que afasta a expectativa de uma redução iminente nas taxas de juros, já que poderia fazer com que a inflação ganhasse força. Esse cenário fortalece a perspectiva de que o Fed pode adotar uma postura mais conservadora em relação aos cortes nos juros.

Os analistas estão reavaliando suas previsões sobre o futuro das taxas de juros nos EUA, com o mercado agora precificando menos de 60% de chance de início do ciclo de cortes em março, movendo as expectativas de juros para faixas entre 3,75% e 4% até o final do ano.

Esses desenvolvimentos refletem a complexidade que o Fed enfrenta ao equilibrar a normalização da política monetária e a manutenção da estabilidade econômica. A decisão sobre o momento e a forma como o Fed encerrará o QT será crucial para garantir a estabilidade dos mercados financeiros

E qual o impacto disso para o Brasil? 

A intensidade dos cortes de juros nos EUA é crucial para definir a direção dos juros locais. Caso os EUA mantenham suas taxas de juros mais altas, investidores e empresas tendem a alocar recursos para lá, em busca de melhores retornos e segurança no comparativo com países emergentes como o Brasil. Isso pode pressionar as taxas de câmbio locais e criar desafios para o controle da inflação por aqui.

De toda forma, a perspectiva no Brasil ainda é de corte de juros nos próximos meses. A dúvida é qual será o patamar dos juros ao fim desse processo. Nossa visão é que esse número será impactado, principalmente, pela trajetória dos juros americanos.

Qual título de Renda Fixa escolher?

Estamos passando por um período de corte de juros (Selic/CDI) no Brasil que foi iniciado em agosto de 2023. Atualmente, com a expectativa do mercado é um corte de mais 2,5 p.p. até o final do ano, saindo dos atuais 11,75%a.a. até 9,25% ao final de 2024.

Figura 1: Projeções do Boletim Focus em 29/12/23

Claro que essas previsões sobre a intensidade do corte dos juros podem (e provavelmente irão) se alterar ao longo do ano, de acordo com as expectativas econômicas internas e, especialmente, com a trajetória dos juros americanos, como detalhado no tópico anterior. Contudo, o cenário base continua sendo de queda de ao menos mais 2p.p. da Selic até o final do ano.

E nesse cenário de queda na taxa de juros local é natural que os investidores fiquem em dúvida sobre em qual tipo de renda fixa se posicionar. Antes de passar sobre nossa visão, vale reforçar quais são as opções de indexadores disponíveis no mercado de renda fixa brasileiro.

Pós-fixado: Investimentos pós-fixados estão atrelados a uma taxa de referência, como o CDI (Certificado de Depósito Interbancário). Nesse tipo de investimento, a rentabilidade está vinculada à variação dessa taxa ao longo do tempo. Se o CDI sobe, a rentabilidade do investimento também aumenta, e vice-versa.

Prefixado: Investimentos prefixados têm sua rentabilidade definida no momento da aplicação. Ou seja, o investidor sabe exatamente qual será o rendimento ao final do prazo contratado, independentemente da variação da taxa Selic no futuro.

IPCA+: Esse tipo de investimento está atrelado ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é o índice oficial de inflação no Brasil. Além do IPCA, geralmente há um adicional de juros prefixados para determinar a rentabilidade final do investimento. Ele oferece uma proteção contra a inflação, já que se trata de um rendimento real (juros fixos + variação da inflação). 

CDI+: Similar ao IPCA+, o CDI+ é um tipo de investimento atrelado ao CDI, mas com um adicional de juros prefixados. Funciona de maneira semelhante ao pós-fixado com CDI, mas com uma taxa de remuneração superior, estabelecida no momento da aplicação.

Tendo em vista o cenário esperado para as taxas de inflação e Selic/CDI, podemos fazer uma análise comparativa de como cada título deve se comportar no futuro. Claro, que tendo em vista que as previsões das taxas podem falhar em caso de mudança do cenário de mercado.

Figura 2: Análise comparativa das taxas de indexadores de renda fixa disponíveis atualmente

Apesar da queda das taxas disponíveis para títulos Prefixados e IPCA+ em relação ao primeiro semestre de 2023, que foi quando indicamos nossa preferência por esses indexadores, ainda vemos como atrativo esses tipos de investimentos dado o cenário atual.

Importante atentar ao seu perfil de risco e objetivos financeiros, que irão determinar a possibilidade e o tamanho da exposição adequada nesses tipos de ativos. Em caso de dúvidas, entre em contato com o seu planejador financeiro para obter uma recomendação personalizada.

Aprovação da Reforma Tributária

A aprovação da reforma tributária, um marco no cenário político-econômico brasileiro, traz consigo a promessa de simplificação e modernização do sistema tributário do país. Porém, a jornada rumo à implementação efetiva do novo modelo ainda enfrenta desafios.

Um dos principais objetivos da reforma tributária é a simplificação do nosso complexo sistema atual. Ao aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 45, o Congresso Nacional estabeleceu as bases para um novo modelo, porém deixou uma considerável quantidade de detalhes em aberto. A definição de alíquotas e outros elementos fundamentais para a viabilidade dos novos tributos permanece em discussão.

A previsão otimista indica que até o final de 2024, as leis complementares necessárias poderão ser aprovadas, permitindo o início do período de transição para o novo sistema tributário reformulado a partir de 2026. 

Vale lembrar que o que foi tramitado e aprovado até agora, diz respeito apenas aos impostos sobre consumo. A reforma sobre a renda ainda será debatida e é difícil visualizar a aprovação dela em 2024. A princípio, o que é dito pelo ministério da fazendo é que haverá um aumento da tributação sobre a renda para permitir uma redução na tributação sobre o consumo. 

Sob a ótica da eficiência tributária, esse movimento faz sentido, já que a tributação sobre o consumo gera mais ineficiências econômicas que a tributação sobrea renda. 

Contudo, o grande receio é se haverá vontade política para realmente manter a carga tributária total inalterada. Especialmente, tendo em vista a situação fiscal delicada do País e a falta de movimentos para corte de despesas, que tem feito com que o governo busque aumentar a arrecadação através de medidas excepcionais.

Em suma, o ponto crucial é se o governo irá ou não aumentar impostos nos próximos passos da reforma tributária.

Perspectivas para o Brasil em meio a “desglobalização”

O panorama global está testemunhando um novo capítulo marcado por crescente polarização geopolítica, o que poderia desencadear uma fragmentação no comércio em meio à atual economia globalizada, acarretando impactos significativos em várias economias.

Um estudo recente chamado "Repensando a Geoeconomia", conduzido pelo Instituto Ifo na Alemanha, uma organização especializada em pesquisas econômicas, revela projeções desafiadoras para o mundo.

De acordo com as estimativas deste estudo, a União Europeia poderia sofrer perdas econômicas consideráveis, variando entre 1,6% e 2,4% do PIB, caso a fragmentação se solidifique. Estes números destacam a vulnerabilidade de economias altamente interligadas diante da crescente instabilidade geopolítica.

Nesse contexto, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia está enfrentando obstáculos. A mudança de governo na Argentina levantou incertezas sobre a continuidade do acordo, somando-se às preocupações ambientais da Europa em relação ao Brasil. Além disso, o protecionismo comercial europeu, liderado pela França, teme os impactos para os produtores locais provenientes do aumento da competição com os produtos agrícolas brasileiros.

O Brasil poderia enfrentar prejuízos a longo prazo caso o acordo não se realize, como a falta de diversificação na pauta de exportações, a manutenção da dependência nas exportações para a China e o enfraquecimento do Mercosul.

Neste contexto, é crucial que o Brasil, como membro do Mercosul, adote uma abordagem estratégica para navegar nessas mudanças e aproveitar as oportunidades emergentes.

Olhando para o estudo do Instituto Ifo, a perspectiva de uma fragmentação geoeconômica, com o retorno de regiões como China, EUA e Europa - trazendo de volta suas cadeias produtivas para seus territórios e desconectando-se do comércio global - resultaria em perdas prolongadas de bem-estar para vários países. Este cenário seria especialmente prejudicial para a União Europeia, acarretando custos econômicos significativos e comprometendo a competitividade dessas regiões.

No entanto, é interessante notar que, embora a UE enfrente grandes perdas, o estudo sugere que países como EUA, México, Índia e Brasil teriam impactos menores em um cenário mais extremo de "desglobalização".

Isso se deve ao fato de que a imposição de barreiras comerciais entre os blocos liderados por EUA e China tornaria o comércio entre eles consideravelmente mais caro, incentivando a busca por alternativas comerciais, o que poderia gerar oportunidades para países não alinhados, como Brasil, Índia e México.

Neste contexto, o Brasil poderia explorar mercados onde não seria competitivo de outra forma, beneficiando setores industriais com pouca competitividade no mercado externo. No entanto, isso depende da construção de acordos, como o entre a União Europeia e o Mercosul.

O desafio principal do Brasil é manter boas relações com ambos os polos econômicos e se posicionar como um parceiro confiável. Assim, diante de uma possível fragmentação do comércio global, o Brasil estaria bem posicionado para aproveitar novas oportunidades de negociação.

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