Panorama de Mercado - Dezembro 2021

André Falcão
Economista
20/1/2022

Principais Acontecimentos

Nesse tópico passaremos pelos principais destaques de 2021 na economia e investimentos no Brasil e no Mundo. O objetivo é trazer maior clareza dos cenários e riscos atuais na hora de investir. Acreditamos que esses são temas relevantes, os quais acompanharemos ao longo de 2022.

Economia Internacional

Cenário da Pandemia

Em 2021 tivemos boas notícias no combate à pandemia, com o avanço da vacinação e ao retorno das atividades econômicas. Assim, a economia global mostrou uma importante recuperação, animando o mercado financeiro internacional, que atingiram suas máximas históricas.

Entretanto, ao final do ano, os noticiários foram tomados pelas notícias da nova variante do Covid, a Ômicron. Com essa variante, temos visto uma nova onda de medidas restritivas por parte de alguns países, já que a Ômicron tem se mostrado extremamente contagiosa, o que acende o sinal de alerta para os investidores, que temem uma nova paralização da economia.

Figura 1: Média Móvel de 7 Dias para Número de Casos a Cada 1 Milhão de Pessoas.

Contudo, até o momento, apesar de um aumento no número de casos, a situação parece ser menos preocupante quando comparada ao início da pandemia em 2020, quando havia uma grande dose de incerteza devido à falta de meios efetivos de combate à doença. Agora, temos a vacina e uma variante que tem apresentado casos mais leves. 

Esses podem ser motivos que explicam como países com alto grau de vacinação, como Estados Unidos e Reino Unido, batem recorde em número de casos, porém, apresentam números de mortes pela doença menores que os registrados em 2020 e 2021. Ou seja, atualmente, a taxa de fatalidade tem se reduzido, como mostra a Figura 2.

Figura 2: Média Móvel de 7 dias para a taxa de Fatalidade do Covid-19 no Brasil, EUA, Reino Unido e Mundo

Apesar disso, o coronavírus continua sendo um fator de preocupação para os mercados e, especialmente, para o nosso dia a dia em 2022.

 Fontes:

Inflação Global

Como falamos ao longo do último ano, a inflação não tem sido apenas um problema brasileiro. O mundo todo tem sentido os impactos da paralização das cadeias globais de suprimentos por conta da pandemia e, principalmente, dos excessivos estímulos monetários feitos por países como EUA e o Bloco Europeu.

Na Figura 3, temos a taxa de crescimento do M2 dos EUA, indicador monetário que mostra o volume de dinheiro em circulação no país. É possível ver a diferença assustadora no período pós restrições econômicas.

Figura 3: Taxa de Crescimento de 12 meses do  M2 nos Estados Unidos – M2: Agregado monetário que representa a moeda em circulação e depósitos de curto prazo

É importante ressaltar que esta é a verdadeira causa do aumento de inflação nos EUA, a agressiva injeção de dinheiro, através de cheques de estímulos e compra de ativos pelo FED (Banco Central do País).

Ao injetar dinheiro na economia, o governo desvaloriza a moeda e reduz o poder de compra das pessoas. Afinal, se há mais dólares para gastar eles serão gastos e, consequentemente, os produtos comprados aumentarão de preço. Por mais que as justificativas dos bancos centrais sejam sempre fatores externos, como a alta do petróleo, o fator monetário é de suma importância para justificar o que tem acontecido.

Abaixo, na Figura 4, temos as taxas de inflação (acumuladas de 12 meses) dos Estados Unidos e Brasil para os últimos 10 anos. O Brasil possui, historicamente, uma taxa de inflação muito superior à dos EUA, porém, como dito, o movimento de alta nos índices de inflação em 2021 foi generalizado. Os EUA fecharam o ano com o seu CPI (equivalente ao IPCA brasileiro) marcando 7,0% no ano, enquanto o Brasil apresentou um índice de 10,06%.

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Figura 4: Taxa de Inflação de 12 Meses dos Últimos 10 anos para Brasil e Estados Unidos

Fontes:

FED Muda seu Posicionamento

Em 2021 também vimos uma mudança radical de postura do FED, Banco Central Americano. Após passar o ano afirmando que a inflação seria transitória, e que não haveria necessidade de reduzir sua política de compra de ativos (chamada de quantative easing) ou aumentar os juros, o FED refez seu posicionamento, informando que foi um equívoco chamar a inflação de transitória e que será necessário aumentar os juros ainda em 2022.

Umas das grandes dúvidas para esse ano é se o FED conseguirá acertar a mão na sua política monetária, reduzindo a inflação, ao passo em que tenta não assustar os mercados financeiros com a sua postura mais conservadora. 

Nesse cenário, é preferível evitar empresas muito esticadas e títulos prefixados norte-americanos, já que esses ativos devem sofrer mais em caso de um aumento de juros de maior intensidade.

Transição Energética em Pauta

Um tema que merece destaque é a pauta das mudanças climáticas e como ela tem se desenrolado. Apesar de ser de extrema importância que a questão climática seja endereçada e resolvida, em especial para as gerações futuras, a transição energética tem mostrado alguns efeitos negativos.

O principal problema é a insegurança decorrente da interrupção repentina do funcionamento e dos investimentos em matrizes energéticas mais poluentes, como o carvão e o petróleo. A sociedade atual possui forte dependência dessas fontes e, apesar de muito poluentes, elas garantem o bom funcionamento da economia global. 

Ao reduzir a geração dessas fontes de maneira abrupta e sem outros meios confiáveis para repor a energia que deixou de ser produzida, os preços da energia tendem a disparar. Isso ocorreu em 2021 na Europa continental, Reino Unido e China. Nesse cenário, acreditamos que soluções como a energia nuclear passarão ser mais bem vistas pela comunidade internacional, tanto pela sua confiabilidade (não depende do clima) quanto pelo baixo nível de emissão de gases do efeito estufa.

Fontes:

Bolha Imobiliária na China

Um outro assunto muito importante da pauta de 2021 foi a crise imobiliária chinesa, que teve como ponto crítico o calote da Evergrande, uma das principais construtoras do País. Em junho/21, publicamos um artigo sobre os motivos que nos levavam a evitar o investimento na China, com o seu setor imobiliário disfuncional sendo um desses fatores. 

Os problemas econômicos na China também afetam o Brasil, em especial, as mineradoras e siderúrgicas, que possuem a China como um de seus principais clientes. 

Fontes:

Tensões Geopolíticas

O final do ano também foi marcado por aumento nas tensões geopolíticas, com destaques para dois conflitos: Rússia/Ucrânia e China/Taiwan. A situação do leste europeu é o que parece mais eminente, visto que se estima que mais de 100 mil soldados russos estão posicionados na fronteira com a Ucrânia, preparados para uma invasão.

Esse cenário aquece o contexto político e econômico da Europa, que hoje mantem aliança com a Ucrânia, enquanto possui forte dependência comercial da Rússia, especialmente em questões energéticas, já que possui dependência do gás natural produzido no País. Dependência que foi acentuada em 2021 com a redução da produção energética por fontes poluentes pela Europa, como visto no tópico anterior. 

Já o conflito entre Taiwan e China tem sua origem no desejo de Taiwan de se tornar definitivamente independente, enquanto a China se opõe e considera Taiwan uma província rebelde.

 Recentemente houve troca de “farpas” entre EUA e China sobre a questão de Taiwan, após comentários favoráveis em favor da autonomia do país. Esse tem sido mais um ponto crítico entre as relações chinesas e americanas. 

Fontes:

Brasil: Economia e Política

Reformas Adiadas

Como já antecipado nos relatórios anteriores, as reformas administrativas e tributárias não avançaram e tem perdido força no debate político, ainda mais com a proximidade das eleições. De certa forma, esse adiamento pode ser positivo, já que os textos dessas reformas não tinham agradado boa parte dos economistas e agentes do mercado, especialmente no caso da tributária. Resta saber se haverá folego para aprovação dessas mudanças ainda antes das eleições.

Fontes: 

Inflação Persistente

De maneira análoga ao cenário internacional, a inflação também tem se mostrado um problema persistente aqui no Brasil. Ao manter os juros reduzidos por muito tempo em 2020, o Banco Central deixou espaço para a disparada da inflação em 2021, ano que registrou a maior alta desde 2015.

Além do efeito interno da política monetária, o Brasil também sofreu junto ao resto do mundo com impactos das commodities em alta, em especial o petróleo. Além disso, tivemos a nossa própria crise energética, que aqui foi causada pela falta de chuvas, o que impactou os reservatórios das hidrelétricas. 

Figura 5: IPCA Acumulado Anual – Fonte: IBGE

Juros em Alta

Como visto, a alta da inflação foi um tema crítico para a economia brasileira. Com o objetivo de contê-la, o Bacen iniciou um ciclo de alta de juros, terminando um breve período de juros base (Selic) a 2% a.a. Sob a nossa ótica, a redução dos juros em 2020 foi exagerada e exige agora um aumento agressivo com o intuito de conter a inflação. 

Figura 6: Evolução da Selic Meta – Fonte: Banco Central do Brasil

Contudo, esperamos que o posicionamento mais agressivo no combate à inflação tenha o efeito positivo de controlar esse fenômeno, ou ao menos reduzir em relação ao cenário de 2021. Pelo menos, essa é a expectativa do mercado, que prevê um IPCA por volta de 5%. 

Entretanto, não devemos nos prender a essas expectativas. Prova disso, é que a inflação esperada em janeiro do ano passado para 2021 era por volta de 4% e encerrou o período em 10,06%. Vale continuar com a exposição recomendada em títulos atrelados à inflação para evitar maiores surpresas.

Fontes: 

 Crise Hídrica – Página virada?

Outro tema que impactou muitos brasileiros no ano passado foi a crise hídrica, que resultou em aumento da conta de energia elétrica, o que por sua vez foi mais um combustível para a inflação. 

Para 2022, ao que tudo indica, teremos notícias mais positivas sobre esse assunto, já que as chuvas dos últimos meses ajudaram a aumentar os níveis dos reservatórios das hidrelétricas e reduzir a necessidade de utilização de usinas termelétricas, que são mais caras.

Fontes:

Desemprego e Renda

Ao longo de 2020 e 2021 tivemos um cenário bastante volátil para a maior parte dos brasileiros, com perdas de empregos (em 2020) e redução de renda. O gráfico abaixo mostra essa dinâmica. 

Figura 7: Variação de 12 meses da População Ocupada (PO) e Renda Média – Fonte: FGV

Como fator positivo em 2021, tivemos a redução do desemprego, que retomou níveis pré-pandemia com o aumento da População Ocupada (PO – em verde no gráfico), devido à recuperação econômica e redução das restrições vistas ao longo do ano. 

Contudo, a renda continua depreciada e não mostra sinais de recuperação. Ou seja, na média, o brasileiro se encontra em um cenário bem pior que o de 2019, já que teve o duplo efeito de redução na sua renda nominal, aliado a um aumento agressivo da inflação.

Fontes: 

Eleições 

Por fim, o grande assunto no Brasil esse ano serão as eleições, vamos para mais uma disputa polarizada e que deve movimentar os mercados com os receios do que será feito na política econômica no próximo ciclo presidencial. Contudo, parece haver pouco espaço para um governo executivo que tome medidas muito extremas, devendo se manter mais ao centro em questões econômicas.

O futuro é incerto e é difícil prever o que acontecerá com a política brasileira nos próximos anos. Contudo, o mais importante na hora de investir é comprar ativos a um preço justo. Toda essa incerteza com o cenário político brasileiro parece estar sendo refletida no preço de algumas empresas excelentes, o que acaba gerando oportunidades. 

O Que Esperar para 2022?

Prever o futuro é um desafio ingrato, já que as chances de acerto são mínimas e normalmente o analista ou economista que tenta fazê-lo sempre, ou quase sempre, erra. Acontece que o futuro é repleto de variáveis desconhecidas, como foi o coronavírus para os que previam o ano de 2020. 

Por esse motivo, aqui na Múltiplos, não temos como objetivo prever quanto será o PIB ao final do ano, ou qual será o preço de determinada ação ao fim de 2022. Contudo, buscamos entender o cenário que estamos inseridos. Dessa forma, conseguimos atenuar os riscos e, assim, priorizar os fundamentos dos negócios e ativos investidos, já que é aí onde possuímos maior possibilidade de acerto. 

Entretanto, é natural que os fundamentos dos ativos por vezes não reflitam o preço deles, e é isso que torna possível aproveitar as melhores oportunidades. Em cenários conturbados, como o que estamos passando, encontrar bons investimentos se torna uma atividade ainda mais interessante. Se o mercado refletisse a realidade de todas as empresas, não teríamos como aproveitar esses momentos.

Nesse sentido, esperamos que 2022 seja um ano tão desafiador quanto 2021 (ou até mais). Afinal, temos eleições presidenciais, problemas fiscais, políticas monetárias contracionistas (alta de juros). Nesse ano, devemos esperar uma economia amena que luta para se livrar da inflação. 

Contudo, paciência é a regra do jogo, nos esforçamos para nos posicionar de forma defensiva para esse cenário, diversificando as alocações dos investimentos, ao passo que não queremos ficar de fora das oportunidades que surgem e temos adicionado novas teses nas carteiras de ações e aumentando a exposição nessa classe. 

Mas, como falamos, não podemos prever o futuro e, é claro, não podemos garantir rentabilidade. O que podemos é fazer as escolhas que consideramos melhor, estamos confiantes que os ativos selecionados apresentam um excelente potencial de retorno, não olhando apenas para 2022, mas sim, para os próximos 5, 10, 15 anos – ou como gostamos de chamar – o longo prazo.

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